Maratona de Boston 2013
Quando meu filho começou treinar para correr maratonas confesso que não me empolguei, pelo contrário, aconselhei a optar por corridas mais curtas, no máximo 20 quilometros. Sempre fui apaixonado por esportes, particularmente pelo futebol e corridas, mas nunca fiz uma prova com distância superior a 15 quilometros. Meus conhecimentos de fisiologia contribuiram pela opção de não exigir muito do corpo.
Treinar para correr maratonas requer muito tempo, alimentação adequada e repouso proporcional, receita incompatível com minha rotina de vida que me obriga a levantar muito cedo para dar aulas. Provas longas, desgastantes, são mais indicadas para pessoas que podem conciliar o trabalho com um programa de treinamento que garanta segurança para a prática da modalidade. Caso contrário deixa de ser uma opção saudável e escolha equivocada de modalidade de esporte a ser praticado.
Fui vencido pela determinação do meu filho que embarcou, no final do ano passado, para correr a Maratona de Nova York que acabou não acontecendo devido aos estragos provocados pelo Furacão Sandy e, principalmente, pela população que exigiu a suspensão do evento. Frustrado, por não ter conseguido realizar o sonho de correr a primeira Maratona, continuou treinando e fez inscrição para correr em Boston.
Famosa por ser a mais antiga Maratona realizada em cidades a prova é muito concorrida e com vagas limitadas para participantes. Viajamos para Nova York no dia 9 de abril. Disse viajamos porque eu, minha esposa, nora e netos, fomos juntos para testemunhar aquele sonhado momento de todo corredor amador. Alugamos um carro no aeroporto e partimos, no mesmo dia da chegada, para Boston.
Nos hospedamos em Burlington, cidade próxima ao local da corrida. Na sexta-feira comecei a sentir toda energia da prova. Fomos buscar o número de inscrição e o kit distribuído pela organização da corrida. Encontramos uma multidão de pessoas alegres percorrendo os corredores da feira de produtos esportivos. É difícil explicar a emoção daquele momento que registramos, com fotos, o meu filho segurando o número (que depois se revelaria de muita sorte) que seria sua identidade durante a Maratona.
Segunda-feira, dia 15 de abril, saímos cedo de Burlington, minha nora e eu fomos levar meu filho para o ponto de encontro, as sete e meia da manhã, onde estavam os onibus que levariam os corredores para o local da largada nos arredores de Boston.
A parte mais emocionante da corrida não estava prevista e nem de longe imaginada. Meus netinhos, Helena, com quatro anos e meio, e Pedro, um ano e sete meses, acomodados em carrinhos, estavam conosco, na avenida bem próximos a linha de chegada. Escolhemos o local porque ficava na frente de um shopping onde deixamos o carro, alugado, na garagem.
Depois de algumas horas, para nosso alívio, meu filho apareceu entre os “atletas” e na passagem beijou minha nora e seguiu para completar os 42 quilometros e alguns metros da prova. Cruzou a linha de chegada quinze minutos antes da primeira explosão. Aqueles quinze minutos foram suficientes para nos tirar dos locais onde aconteceram as duas explosões. Proteção Divina? Temos certeza que sim.
Logo depois que meu filho passou por nós fomos, conforme combinado anteriormente, para o ponto de encontro das famílias onde os corredores amadores recebiam as medalhas de participação. Caminhamos na calçada com dificuldades, devido a multidão que se aglomerava para assistir o final da corrida e também porque estávamos empurrando dois carrinhos onde estavam as crianças.
Contornamos a arquibancada, onde ficava a linha de chegada, e quando estávamos a algumas dezenas de metros daquele local, na mesma rua, aconteceu a primeira explosão, muito forte e próxima. Olhei para os policiais que estavam por alí buscando encontrar, nas expressões faciais, uma resposta para confirmar meu temor. Não precisou de muito tempo para entender o que se passava. Alguns segundos depois da primeira explosão, aproximadamente 10, aconteceu a segunda e com ela a certeza daquilo que confirmava o que mais temia, ação terrorista.
Apressamos o passo ouvindo barulho das sirenas das ambulâncias e carros policiais, sem pânico mas angustiados buscando encontrar meu filho. Foi muito rápido, ele já vinha ao nosso encontro caminhando devagar sem entender o que estava acontecendo. Cansado e sob o efeito das endorfinas liberadas durante a corrida, não tinha nem idéia de como sua primeira maratona ficaria marcada pelo ato insano de jovens terroristas.
Passamos a caminhar rapidamente na direção do estacionamento localizado no sub-solo do shopping temendo a possibilidade de que outras explosões pudessem acontecer. Ainda não sabíamos onde elas tinham acontecido. Caminhamos durante alguns minutos cruzando com pessoas chorando e com os policiais abrindo passagem para as ambulâncias. Muito medo quando chegamos na garagem para pegar o carro, queríamos sair logo dali.
Demoramos mais de uma hora para vencer o congestionamento e conseguir acessar a rodovia que nos levaria a Burlington. Com o rádio ligado começamos a organizar os fatos e perceber que nosso Anjo da Guarda permitiu que, ao cruzar a linha de chegada quinze minutos antes da primeira explosão, meu filho nos tirou do local onde, em frente, aconteceu a segunda.
Mais tarde vendo as fotos, onde procurei registrar momentos da Maratona, encontrei duas que revelaram a presença da mochila com explosivos ao lado da lata de lixo, na calçada oposta onde eu estava com minha família. Infelizmente a família do menino que morreu e da menina de 6 anos que precisou amputar uma das pernas não teve a mesma sorte. Para a mãe, que esta internada em estado grave, e para o pai, que completou a prova, a Maratona de Boston foi a pior das opções. Esporte nunca deveria rimar com morte!!!
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